17/04/2013
Leandro Fortes: “Querem trocar juiz após vir à tona nome de tucano”
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| Paulinho, então com 10 anos, foi sedado e teve os órgãos retirados quando ainda estava vivo |
A dor de Paulo Pavesi
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| LEANDRO FORTES |
Sozinho, escondido em Londres, na
Inglaterra, depois de ter conseguido asilo humanitário na Itália, em 2008, o
analista de sistemas Paulo Pavesi se transformou no exército de um só homem
contra a impunidade dos médicos-monstros que, em 2000, assassinaram seu filho
para lhe retirar os rins, o fígado e as córneas.
Paulo Veronesi Pavesi, então com
10 anos de idade, caiu de um brinquedo no prédio onde morava, e foi levado para
a Irmandade Santa Casa de Poços de Caldas, no sul de Minas, onde foi atendido
pelo médico Alvaro Inhaez que, como se descobriu mais tarde, era o chefe de uma
central clandestina de retirada de órgãos humanos disfarçada de ONG, a MG Sul
Transplantes. Paulinho foi sedado e teve os órgãos retirados quando ainda
estava vivo, no melhor estilo do médico nazista Josef Mengele.
Na edição desta semana de
CartaCapital, publiquei uma reportagem sobre o envolvimento do deputado
estadual Carlos Mosconi (PSDB) com a chamada “Máfia dos Transplantes” da
Irmandade Santa Casa de Poços de Caldas.
Mosconi, eleito no início do ano,
pela quarta vez consecutiva, presidente da Comissão de Saúde (!) da Assembleia
Legislativa de Minas Gerais, foi assessor especial do senador Aécio Neves
(PSDB-MG), quando este era governador do estado. Aécio o nomeou, em 2003,
presidente da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMG), à qual a
MG Sul Transplantes, idealizada por Mosconi e outros quatro médicos ligados á
máfia dos transplantes, era subordinada.
As poucas notícias que são
veiculadas sobre o caso, à exceção da matéria de minha autoria publicada esta
semana, jamais citam o nome de Carlos Mosconi. Em Minas Gerais, como se sabe, a
imprensa é controlada pela mão de ferro do PSDB. Nada se noticia de ruim sobre
os tucanos, nem quando se trata de assassinato a sangue frio de uma criança de
10 anos que teve as córneas arrancadas quando ainda vivia para que fossem
vendidas, no mercado negro, por 1,2 mil reais. Nada.
Esse silêncio, aliado à leniência
da polícia e do judiciário mineiro, é fonte permanente da dor de Paulo Pavesi.
Mas Pavesi não se cala. De seu exílio inglês, ele nos lembra, todos os dias,
que somos uma sociedade arcaica e perversa ao ponto de proteger assassinos por
questões políticas paroquiais.
Como sempre, a velha mídia
nacional, sem falar na amordaçada mídia mineira, não deu repercussão alguma à
CartaCapital, como se isso tivesse alguma importância nesses tempos de
blogosfera e redes sociais.
Pela internet, o Brasil e o mundo
foram apresentados ao juiz Narciso Alvarenga de Castro, da 1ª Vara Criminal de
Poços de Caldas. Em de 19 de fevereiro desse ano, ele condenou quatro
médicos-monstros envolvidos na máfia: João Alberto Brandão, Celso Scafi,
Cláudio Fernandes e Alexandre Zincone. Eles foram condenados pela morte de um
trabalhador rural, João Domingos de Carvalho.
Internado por sete dias na
enfermaria da Santa Casa, entre 11 e 17 de abril de 2001, Carvalho, assim como
Paulinho, foi dado como morto quando estava sedado e teve os rins, as córneas e
o fígado retirados por Cláudio Fernandes e Celso Scafi. Outros sete casos
semelhantes foram levantados pela Polícia Federal na Santa Casa.
Todos os condenados são ligados à
MG Sul Transplantes. Scafi, além de tudo, era sócio de Mosconi em uma clínica
de Poços de Caldas, base eleitoral do deputado. A quadrilha realizava os
transplantes na Santa Casa, o que garantia, além do dinheiro tomado dos
beneficiários da lista, recursos do SUS para o hospital. O delegado Célio
Jacinto, responsável pelas investigações da PF, revelou a existência de uma
carta do parlamentar na qual ele solicita ao amigo Ianhez o fornecimento de um
rim para atender ao pedido do prefeito de Campanha (MG). A carta, disse o
delegado, foi apreendida entre os documentos de Ianhez, mas desapareceu
misteriosamente do inquérito sob custódia do Ministério Público Estadual de
Minas Gerais.
Ontem, veio o troco.
A Câmara Criminal do Tribunal de
Justiça de Minas Gerais (TJMG) suspendeu as audiências que aconteceriam de
hoje, 17 de abril, até sexta-feira, 19 de abril, para se iniciar, finalmente, o
julgamento do caso de Paulinho. Neste processo, estão sendo julgados,
novamente, Cláudio Fernandes e Celso Scafi, além de outros acusado, Sérgio Poli
Gaspar.
De acordo com a assessoria do
TJMG, o cancelamento se deu por conta de uma medida de “exceção de suspeição”
contra o juiz Narciso de Castro impetrada pelo escritório Kalil e Horta
Advogados, que defende Fernandes e Scafi. A defesa da dupla, já condenada a
penas de 8 a
11 anos de cadeia, argumenta que o juiz teria perdido a “necessária isenção e
imparcialidade” para apreciar o Caso Pavesi.
Ou seja, querem trocar o juiz,
justo agora que o nome do deputado Carlos Mosconi veio à tona.
Eu, sinceramente, ainda espero
que haja juízes – e jornalistas – em Minas Gerais para denunciar esse acinte à
humanidade de Paulo Pavesi que, no fim das contas, é a humanidade de todos nós.
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