2 de maio de 2013
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| Antério Mânica, condecorado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais |
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| Gustavo Costa |
No dia 28 de janeiro de 2004, uma
denúncia anônima de trabalho degradante no campo (forjada) levou três auditores
fiscais do Ministério do Trabalho e o motorista deles para uma emboscada.
Todos foram executados com tiros na cabeça, a menos de 160 quilômetros de
Brasília.
Os assassinatos repercutiram dentro e fora do país.
Por pressão direta da Presidência
da República, uma investigação relâmpago descobriu os envolvidos nas execuções.
Uma trama que envolve hierarquia e poder.
Segundo o Ministério Público
Federal, os irmãos Antério e Norberto Mânica, os maiores produtores de feijão
do país, seriam os mandantes.
Hugo Pimenta e José Aberto de
Castro, o Zezinho, empresários de sucesso na produção de grãos, os
intermediários.
Francisco Helder Pinheiro, conhecido
como Chico Pinheiro, o homem que contratou os pistoleiros.
Erinaldo Silva e Rogério Alan
Rocha, os matadores.
Willian de Miranda, motorista dos
bandidos.
E Humberto dos Santos, o
responsável por tentar apagar os rastros da quadrilha.
Antério Mânica, segundo o
Ministério Público Federal um dos mandantes da chacina, se elegeu duas vezes
prefeito de Unaí concorrendo pelo PSDB.
Sua declaração de bens na Justiça
Eleitoral, em 2008, chegou perto dos 19 milhões de reais.
A primeira eleição aconteceu no
ano do crime, mesmo sendo ele um dos suspeitos de mandar matar os servidores
públicos.
Antério passou dois curtos
períodos na cadeia.
As propriedades dele, com cerca
de cinco mil hectares, produzem mais de 200 mil sacas de 60 quilos de feijão
por safra.
Os Mânicas são descendentes de
italianos. Chegaram ao Brasil no final de década de 40.
Hoje, Antério diz que
praticamente não conversa com o irmão, Norberto, que mudou-se para o interior
de Mato Grosso.
Neste domingo você pode ver no
Domingo Espetacular, da TV Record, às 20h30, uma reportagem especial com
detalhes inéditos de um atentado contra o estado brasileiro: Chacina de Unaí, o
Dossiê.
A seguir, uma entrevista
exclusiva com Antério Mânica, feita em Unaí:
Gustavo Costa: Quando aconteceu a
Chacina de Unaí, o senhor ficou preso quanto tempo?
Antério: Fui preso faltando 18
dias, aliás, às 18 horas, fui preso porque depois da meia noite não poderia
mais ser preso porque faltavam 15 dias [para a eleição], e eu era candidato. E
a Polícia Federal e a Civil, que investigou, até hoje não encontrou sequer
indícios de minha participação no crime. Um juiz, que está afastado e sendo
investigado neste momento, por ofício me mandou prender. E cinco dias após a minha
prisão, o Ministério Público Federal ofereceu uma denúncia. Então, fui preso
seis horas antes do limite que não poderia ser preso por ser candidato. E
faltando três dias para a minha diplomação, sem fato novo, este mesmo juiz me
mandou prender. E as duas vezes eu fui solto por unanimidade, por habeas corpus
no tribunal federal, em Brasília, por unanimidade dos desembargadores. Eu
fiquei preso 17,18 dias na primeira prisão e dois dias na segunda prisão.
Gustavo Costa: Segundo a
investigação, o senhor e o seu irmão são os mandantes do crime. O senhor mandou
matar os auditores fiscais do Ministério do Trabalho e o motorista?
Antério: Absolutamente. Eu falo
por mim, não tenho nada a ver com este crime. Tanto é que a Policia Federal e
Civil, com delegado escolhido a dedo, não encontraram até hoje sequer indícios
de participação minha.
Gustavo Costa: Qual a relação do
senhor com o empresário Hugo Pimenta, acusado de ser um dos intermediários da
chacina?
Antério: Praticamente nenhuma.
Ele era comprador de feijão, mas eu praticamente não comercializava com ele.
Não era meu inimigo, mas não tinha relação próxima com ele.
Gustavo Costa: O senhor conhecia
o Nelson [José da Silva], um dos fiscais assassinados?
Antério: Conhecia, praticamente
nunca conversamos. A imprensa divulgou que tem ameaças minhas pra ele. Na
verdade, o que tem no processo é uma ameaça, segundo o processo, que um irmão
meu, Norberto Mânica, teria feito, num escritório, com um perfurador de saco de
feijão para amostragem de feijão. Comigo mesmo, nunca tivemos uma troca de
palavra sequer. Essa é a verdade. Não foi o que a imprensa divulgou. E muitas
vezes o próprio Ministério Público tem divulgado inverdades, como por exemplo,
o último relato no site a respeito desta decisão do STJ.
No site do Ministério Público de
Minas Gerais diz que fui preso em 2007. É mentira. No site, nesta mesma
reportagem, fala que eu entrei com recurso para procrastinar o julgamento.
Faltaram com a verdade, literalmente. Eu não sei porque eles fazem isso. Desde
o início do processo eu entrei com três recursos no Tribunal — a não ser os
habeas corpus — os três pedindo julgamento imediato, e por três vezes o
Ministéro Publico Federal entrou com recurso e conseguiu adiar meu julgamento e
o meu será depois que os de todos os outros acusados. Então, o Ministério
Público falta literalmente com a verdade, mente, para ser mais enfático. Só
nesta última matéria, duas mentiras: que eu entrei com um recurso para
procrastinar meu julgamento, quando foram eles. Eles falam ao contrário. E
contaram lá que fui preso em 2007. Outra inverdade, fui preso antes de assumir,
em 2005. E depois disso nunca mais fui preso, fui chamado, intimado, nunca
mais.
Gustavo Costa: O auditor fiscal Nelson
fiscalizou sua propriedade?
Antério: A minha ele fiscalizou,
fiscalizou a fazenda de todos os produtores aqui de Unaí, produtores de médio
porte pra cima, ele fiscalizou a região.
Gustavo Costa: O senhor foi
autuado por trabalho degradante?
Antério: Não, jamais fui autuado
por trabalho degradante ou por trabalho escravo.
Até digo mais: aqui em Unaí tem
dois ou três casos de pequenos produtores e carvoeiros que foram autuados por
trabalho degradante. Nós temos o ex-prefeito, que me antecedeu, que foi autuado
numa fazenda dele, no Pará. Então, Unaí não tem disso. E digo mais, não só a
minha fazenda, o padrão dos produtores rurais e empresariais de Unaí é um dos
melhores do país. E as autuações são das mais normais possíveis. As multas
milionárias divulgadas por todos os meios de comunicação, eu não sei onde
acharam isso. Mentira em cima de mentira, multas milionárias que nunca
existiram.
Gustavo Costa: Se o senhor foi
autuado, lembra do valor que pagou?
Antério: 5 mil, 20 mil, 3 mil. É
assim: a autuação, se você pagar na hora, paga com 50% do valor, se entrar na
Justiça, tem que depositar 100% do valor e passar 20 anos brigando. Então, o
pessoal que nos assessora diz que é interessante pagar o valorzinho em vez de
brigar anos e anos na Justiça.
Gustavo Costa: O senhor teve
contato com o Chico Pinheiro ou com o Zezinho? [Chico, agenciador dos
matadores; José Alberto de Castro, o Zezinho, intermediário]
Antério: Esse Zezinho eu devia
conhecer porque a mãe dele chegou a morar do lado da minha mãe aqui na cidade,
mas não tinha relacionamento nenhum. E os outros conheci na penitenciária
Nelson Hungria, quando fui preso eles estavam lá. Nunca tinha visto essas
pessoas e nunca tive contato com eles.
Gustavo Costa: Antes do crime, o
senhor ligou para a Delegacia do Ministério do Trabalho, em Paracatu, para
oferecer uma coroa de flores ao fiscal Nelson?
Antério: Isso é piada, para não
dizer mais. Na verdade, no dia que aconteceu a tragédia eu dei depoimento para
Polícia Federal, fui intimado e eles confirmaram isso tudo. O gerente [Juca] da
cooperativa — que eu fui fundador, presidente por dois mandatos, associado
número 001 — me ligou [dizendo] que um outro produtor passou no local [do
crime] e viu e ligou pra ele. E ele me ligou da cooperativa. Tá tudo no
processo, as ligações. Me ligou perguntando, e eu disse “não sei”.
Aí, eu liguei depois do crime,
meia hora, uma, duas, sei lá, eu liguei [para o Ministério do Trabalho] porque
a delegada, dr. Dália, a gente criou um condomínio rural, a gente tinha e criou
uma proximidade, liguei que a conversa era que teve um problema com fiscais.
Liguei do meu telefone, da minha casa, não era ainda este apartamento, liguei,
é o Antério Mânica, houve o acidente, confirma? A Dália não estava, aí a moça
disse não estou sabendo de nada. Liguei pro Juca na cooperativa dizendo “o
pessoal não sabe de nada”.
Ele [Juca] me ligou depois de uns
15,20 minutos, olha, confirmou [a morte dos fiscais], ligaram de lá. Aí voltei
a ligar, olha, confirmou. Na maior boa fé do mundo, da minha casa, do meu
telefone. Aí começa a história que eu queria confirmar se tinha morrido todo
mundo? Ora, se o pessoal [os assassinos] tava aí, tinha que ter ido atrás deles
e não ligar lá.
Gustavo Costa: Antes, o sr.
ligou?
Antério: Não, nem… Fazia seis
meses ou um ano que eu não ligava para o Ministério do Trabalho, não existe
ligação. Não sei quem criou esta fantasia.
Gustavo Costa: E um pouco depois?
Antério: Isso. Está esclarecido
tudo. Me ligaram da cooperativa. Fazia muito tempo que eu não falava com Hugo,
Zezinho, com Ministério do Trabalho. Ouvi falar da historia da coroa, isso é
fantasia, é loucura.
Gustavo Costa: Como o senhor
ficou sabendo das mortes?
Antério: O gerente da Coagril
[Cooperativa Agrícola de Unaí], Juca, me ligou. Liguei lá [no Ministério do
Trabalho] para saber se era verdade.
Gustavo Costa: O que o senhor tem
a dizer sobre a demora para o julgamento?
Antério: Tá aí gravando, não sei
qual a intenção do Ministério Público em faltar com a verdade. Eu assino
embaixo de tudo o que estou dizendo. Eu quero ser julgado. Entrei com três
pedidos de julgamento imediato na Justiça. Quero que isso acabe. Porque o que
está no processo, não é o que o Ministério Público divulga, e muito menos o que
a grande imprensa tem feito a respeito do meu nome.
E a luta do Ministério Público
pra me levar a Belo Horizonte é porque não querem que eu seja julgado pelos
meus pares, por pessoas que me conhecem há 35 anos, eles querem criar um
monstro lá em BH do Antério Mânica, com mentiras em cima de mentiras. Não
existem multas milionárias, não existe recurso para procrastinar, não existe
coroa de flores, isso é fantasia, alucinação. Eles criaram do Antério Mânica um
monstro. Fui eleito e reeleito, e tenho respeito, a não ser meia dúzia de
adversários por problemas de política, assim mesmo não tenho inimigo, posso ter
adversário.
Gustavo Costa: O senhor tem
preferência do local do julgamente, Belo Horizonte ou Unaí?
Antério: É lógico que eu tenho,
as pessoas aqui sabem quem é Antério Mânica de verdade. Lá eles não tem nada do
Antério, só poucas pessoas me conhecem. Mas eu quero ser julgado, mesmo que
seja em BH, não tenho nada a ver com essa história.
O Ministério Público mente
deliberadamente sobre a minha pessoa e acredito que é influência do sindicato
dos auditores fiscais. Eles contam a versão deles, que é mentirosa, falo do
meu, nesta questão. A verdade é que não fui indiciado pela Polícia Civil e
Federal até hoje.
Gustavo Costa: O senhor foi
condecorado pela Assembléia Legislativa de Minas Gerais?
Antério: Fui condecorado. Eu não
tenho nada a ver com crime, sou inocente, uma pessoa trabalhadora, tive 8 anos
de prefeito. E recebi a homenagem por coisas que você mesmo pode conferir na
cidade, tenho a aprovação de muita gente.
Ele [deputado estadual Durval
Ângelo, do PT, que convocou Antério para depor], como um presidente da Comissão
de Direitos Humanos, vem me condenar sem me julgar. Olha, sou ser humano
também. Ele, desinformado, com informações nada a ver, mentirosas, chegou a ser
duro demais, grotesco comigo. Eu sou um ser humano. Ele tinha que me respeitar
mais, mas pelo menos foi o único que me deu a oportunidade de falar ao vivo. A
imprensa edita, corta, fala do jeito que quer, não passa. Eu não tenho pago
imprensa pra falar a verdade. Mas não sei se o sindicato dos auditores fiscais
não paga, não sei o seu interesse de vir aqui, se tem alguém bancando, não sei.
Essa é a grande verdade: sou
inocente, não tenho nada a ver com este crime. Não fui indiciado e olha, não
encontraram sequer indícios, que dirá culpa.
[Gustavo Costa quer investigar a
ameaça aos awa guajá, indígenas que correm risco de extinção, por parte de
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O senhor será candidato a
deputado?
Antério: Olha, como eu te disse.
Fui candidato a deputado federal em 98, candidato a prefeito em 2000, 2004,
2008. Será que eu tenho que abrir mão de uma coisa que faço desde jovem? Isso
me satisfaz, eu gosto disso.
Gustavo Costa: Os acusados de
intermediários ou de execução em algum momento mencionaram o seu nome ou do seu
irmão?
Antério: Não sei. Não tenho
conhecimento, mas se alguém usou, usou faltando com a verdade.
Gustavo Costa: Qual a sua opinião
sobre o crime?
Antério: Um crime bruto. A versão
que eu ouvi na Justiça Federal, quando estava preso, estavam todos juntos na
sala, alegaram que [os assassinos] estavam numa fazenda para ver e roubar de
noite. Na volta viram uma caminhonete e resolveram roubar. Na hora alguém se
assustou e deram um tiro e mataram todos. Pra falar a verdade, não procurei me
aprofundar. Não tenho nada a ver com isso.
Gustavo Costa: O senhor acredita
em crime de mando?
Antério: Não foi o que eles
contaram lá, mas pode ser também. A Polícia Federal, que não me indiciou, indiciou
o resto. Eu sei que comigo a policia foi justa, não tem indícios.
Gustavo Costa: E o Marea?
[Segundo a polícia, o Marea é um dos carros apreendidos com os envolvidos na
chacina. O veículo seria da mulher dele, Bernadette Mânica]
Antério: Tinha um Marea, ficou de
5 a 6
anos. Agora de ser meu ou da minha esposa, é o argumento que eles usaram. Que
alguém teria visto um Marea na noite anterior ao crime, é o que está no
processo, e que eu liguei na Delegacia do Trabalho para saber se tinham
morrido. Se tinha Marea ou não tinha, eu não sei. Mas não era o da minha esposa
e não era eu. A gente se incomoda com o fato do Ministério Público fazer este
tipo de coisa.
Se eu tivesse 1% de tudo o que a
gente fala que tenho, era muito mais rico. Não dá pra se dizer pobre, não,
temos capital razoável, muita luta, muito trabalho, sem dar prejuízo pra
ninguém. Tem um irmão meu aí, o Norberto [o outro acusado de ser mandante] que
está sendo acusado, deu problema na cidade, vendeu a fazenda agora, separou da
família, entortou a vida.
Gustavo Costa: Está em Mato
Grosso agora?
Antério: É [em Paranatinga].
Gustavo Costa: Como ficou a
relação do senhor com o seu irmão Norberto depois dos assassinatos?
Antério: Praticamente a gente não
conversa. Eu não briguei com ele, ele se distanciou da família. Ficou dois anos
sem visitar a minha mãe. Faz cinco que a minha mãe morreu. Ele veio no enterro.
Mas não temos relacionamento.
Gustavo Costa: O Hugo [acusado de
ser intermediário no crime] diz que o seu irmão deve pra ele quase um milhão de
reais. O senhor também acredita na inocência do seu irmão?
Antério: Não sei. Na verdade,
ele, o Hugo e o Zezinho, pelo que tá no processo, eles se falavam de minuto em
minuto, tinham proximidade. Eu não acredito que tenha um envolvido sem os
outros estarem. Porque eu vi no dia do depoimento, lá em BH, tava meu irmão, o
Hugo, o Zezinho e todos aqueles que estavam presos. Inclusive o que faleceu, o
Chico.
Gustavo Costa: O Hugo enriqueceu?
Antério: Dizem que enriqueceu. Eu
vi o Hugo quando veio aqui. Nunca tinha nem visto na rua. O Hugo saiu do hangar
e mostrou dois aviões. Mas eu não sei qual é o patrimônio [dele].
Gustavo Costa: O que mudou na sua
vida depois do episódio da chacina?
Antério: Vocês não sabem, dei
hoje um depoimento. Isso é um inferno na vida da gente. Se vê todo dia uma
bobagem na imprensa, uma mentira. E fala na imprensa… E eu provo. Eu quero ser
julgado pra acabar com esse inferno. Sabe o que é colocar a cabeça no
travesseiro e pensar: se for condenado é morrer na cadeia, quatro crimes
bárbaros como estes.
Gustavo Costa:O senhor nunca
ameaçou o Nelson, fiscal do Ministério do Trabalho?
Antério: Não ameacei o Nelson.
Norberto e Antério, vão misturando…
Gente, a nossa familia é
humildade total. Pelo patrimônio que nós temos, olha como vivemos, a casa.
Saímos do nada. Não foram nossos pais que fizeram patrimônio, fomos nós.
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No domingo, as provas que o MPF
tem sobre o envolvimento de Antério Mânica na chacina.
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leia também: Tucano Traficante de Órgãos Paulinho, 10 Anos, Teve os Órgãos retirados Ainda em Vida
Tucano Ex Assessor de Aécio é Acusado de Pertencer a Quadrilha de Tráfico de Orgãos
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