![]() |
| by Jesus manero |
![]() |
Por Fábio Py Murta de Almeida |
Niterói, dia 12 de maio de 2013: cerca de 70 mil pessoas na praia para receber a Cruz Peregrina, no evento “Bota Fé Niterói”. Compareceram os principais representantes do catolicismo do estado em Niterói. Entre eles: Dom Orani Tempesta e Dom Francisco José. O evento que precisou de um esquema especial, ruas paradas e mobilização policial. A pauta do evento foi a proclamação da fé católica na preparação da Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Nada muito ecumênico, muito menos político. Celebrou-se missa, fez-se eucaristia.
Rio de Janeiro, dia 25 de maio de 2013: cerca de 500 mil pessoas passaram pelo Centro do Rio de Janeiro, no evento: “Marcha para Jesus”. Compareceram os representantes do movimento evangélico no Rio de Janeiro. Entre eles destaca-se: o pastor Silas Malafaia, pastor Marcus Gregório, e André Valadão (pastor e cantor Som Livre). O evento também precisou de logística: ruas foram paradas e precisou de ajuda policial. Fez-se proclamação evangélica tendo em vista a grande “Marcha para Jesus” que está marcada para o dia 5 de junho em Brasília. Ainda sobre sua forma. O encontro passou longe do formato ecumênico. E, mais ainda, atacaram o programa do governo sobre o novo ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso. Segundo seus porta-vozes, sua nomeação é contra os interesses do segmento. A carreata teve o tom apologético-missionário.
Guardando-se às medidas entre à cidade do Rio de Janeiro e de Niterói (embora próximas) têm diferenças abissais de população. Mesmo assim à diferença de um dígito entre os eventos chama atenção. Não se quer dizer que o catolicismo é menor do que o evangelicalismo. Não é isso. Até por que “Marcha para Jesus” tem histórico de levar milhares de pessoas desde sua formação pela Renascer em Cristo, em 1993. No ano passado o grupo “Vitória em Cristo” do pastor Silas Malafaia passou a ter direitos da Marcha mantendo o ritmo. O que salta aos olhos é que eventos entre os cristianismos possam acarretar numa diferença significativa no número de fiéis. Claro, o ato mereceria um estudo mais amplo (até, por especialistas dos números), mas se defendem que à Marcha leva mais pessoas não só pela localidade, mas pela defesa da fé, e, principalmente, pelo tom agressivo que tem se tornado característico na forma que as lideranças evangélicas vêm conduzindo nas questões políticas do Brasil. E, por outro lado, outra justificativa pelo menor número de pessoas no evento católico, pois tem em suas aspirações uma evangelização já assentada da reprodução do país.
A aparência de que o ‘sucesso’ da Marcha vem da defesa da fé e da plataforma política pode ser caricaturada quando um dos líderes, o pastor Silas Malafaia, admite que as pretensões do setor destoem do restante da população. Numas de suas falas inflamadas indica que o setor quer influenciar todos os setores da esfera pública brasileira: desde a presidência, o senado, o parlamento e o judiciário. Essa afirmação liga o movimento ao fenômeno mundial fundamentalista quando assume (ou visam assumir) o poder. Ora, não seria isso? Nos discursos (em tom de batalha) não se está apostando que uma forma religiosa assuma a reprodução simbólica junto ao Estado. Levando ela a regulamentar (construir) sobre a república brasileira? Efetivamente, esse tipo de movimento tem pretensões sinistras que passam por cima do respeito e da liberdade. Sua plataforma não reconhece à esfera democrática das instâncias liberais do Estado brasileiro. O pior é saber que o setor tem força levando no sábado um número de pessoas ao centro do Rio de Janeiro, sendo capaz de perseguir e denegrir ‘oponentes’ como fazem com ativistas de Direito Humanos: Tatiana Lionço e o Cristiano Lucas.
Por fim, é sério quando ambos os eventos receberam apoio das instâncias governamentais mesmo que visam a proclamação do credo particular. Assim, fica-se a espera que as demais manifestações da cultura simbólica brasileira possam também ter o mesmo apoio logístico e financeiro para realização dos atos da fé, como: do Candomblé, Umbanda, Quimbanda, Barquinha, Santo Daime, entre outros. Afinal, somos ou não somos (ainda) um estado laico?! Quem dera houvesse tamanha preocupação logística e de mobilização a fim de fortalecer índices da boa educação, ou para erradicação da fome e da pobreza no país. Quem dera… Quem dera se lutasse com tanta força no bojo das religiões cristãs para acabar com a desigualdade do país. Afinal, a partilha do pão entre os iguais é um valor cristão primaz esquecido na contemporaneidade capitalista. Os cérebros do cristianismo das multidões sinicamente preferem esquecer isso.
Termino aqui o espaço preocupado enquanto religioso-protestante. Preferindo ajudar no coro, que já foi pronunciado: “Deus nos livre de um país evangélico!”. Que Deus e nós nos livremos de qualquer pretenso projeto de ditadura de alguma religião particular.
Fontes:
_________________________
(*) Fábio Py Murta de Almeida é Teólogo, historiador e doutorando em Teologia pela PUC-RJ. Articulador do blog: fabiopymurtadealmeida.blogspot.com



Nenhum comentário:
Postar um comentário