27/04/2013
Rodrigo Vianna: Frias, ditadura: o ministro que mercadeja
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| Rodrigo Vianna |
Quando os blogueiros foram
processados, pela Globo e pela Folha, Aloisio Mercadante não apareceu para
prestar solidariedade. Nem em público, nem em privado. Requião (PMDB-PR) foi à tribuna. Paulo
Pimenta (PT-RS) também foi. Outros tiveram a atitude (discreta, mas
compreensível pelo cargo que ocupam) de mandar mensagens por telefone ou
internet, manifestando solidariedade.
Mercadante não. Mercadeja.
Fraqueja. Quando o governo Lula passou pela pior crise de sua história, durante
a CPI do Mensalão, lá estava ele – o corajoso senador petista, histérico,
tentando salvar a pele (e a imagem) junto aos eleitores de classe média em São
Paulo. Quase chorou na tribuna. Não defendeu Lula. E tampouco saiu do PT (como
fizeram aqueles que consideraram o “Mensalão” inaceitável). Mercadante ficou no
meio do caminho, oportunisticamente.
Agora, Mercadante aparece para se
dizer “perplexo” com as afirmações de que o dono da “Folha” era um colaborador
estreito da ditadura. Mercadante. Penso nesse nome. Mercadante, mercador,
comerciante. Aquele que mercadeja, troca…
Em busca de que está Mercadante?
Ninguém escreve uma carta patética como essa (leia aqui o texto de EduGuimarães, que reproduz a carta na íntegra) à toa. É um recado do governo Dilma (afinal, ele
assina não como “ministro da Educação”) para a velha mídia? Algo assim: “Fiquem
tranquilos, Dilma e a Comissão da Verdade não irão atrás dos pecados que Frias,
Marinhos e outros cometeram, em sua associação com a ditadura” – é isso? Há
gente que não aceitaria mandar um recado desses…
Ou seria um recado pessoal:
“turma da Folha, eu sou confiável, estou com vocês, lembrem-se disso quando eu
for candidato a governador (ou a presidente, pois este é o novo delírio a
embalar as pretensões do ministro, pelo que dizem em Brasília).
Seja como for, Mercadante ficou
pequeno. Minúsculo.
Muitos na direção do PT vão-se
afastando de sua história. O partido
cedeu muito para governar. Compreensível, trata-se de governo de coalizão.
Foi-se entregando a práticas comuns na política brasileira. Era a busca pela
tal “governabilidade”. Quem acompanha (e eu o faço) as entranhas de uma
investigação como a “Operação Fratelli” (realizada pela PF e o MPF em São
Paulo) encontra deputados petistas
confortavelmente próximos de lobistas e empreiteiras. Tucanos e petistas,
juntos.
É o percurso da social-democracia
no mundo inteiro. Ceder para governar? Ou manter-se fiel aos princípios, mas
sem intervir na gestão do aparato de Estado? PSOE na Espanha, PS francês,
Labour Party inglês e outros preferiram a primeira hipótese. Avalio que o PT
até cedeu menos do que os congêneres europeus. Não se entregou totalmente ao
programa liberal. Fortaleceu o Estado, distribuiu renda, favoreceu a unidade
latino-americana. E tem uma base (operária, sindical, nos movimentos sociais)
que empurra o partido um pouco pra esquerda – apesar de tudo.
Mas na direção, os sinais são de
que os mercadores avançam. Há muitas
exceções, há muita gente boa entre parlamentares e lideranças petistas. Tenho
certeza que a maioria absoluta, inclusive, não aprova a carta patética de
Mercadante. Mas essa carta é mais um sintoma evidente da doença que vai minando
o PT: a doença dos que mercadejam tudo para ficar de bem com os velhos donos do
poder.
Uma coisa, diga-se, é fazer
acordos para governar. Outra é se lambuzar nas maõs de empreiteiras e lobistas.
E outra, ainda pior, é mercadejar a História, aceitando reescrever a História
para ficar de bem com dono de jornal. Patético.
Por último, uma observação.
Mercadante cometeu, parece-me, um ato falho na carta à “Folha”. Ele diz, ao
mecadejar solidariedade ao jornal, que a coluna de “Perseu Abramo” era uma
referência dos que lutavam contra a
ditadura. Perseu, de fato, era uma referência. Jornalista, combativo, crítico
dos meios de comunicação em que havia trabalhado: ele tem uma obra clássica
sobre a manipulação midiática (os petistas costumavam lê-la, nos velhos
tempos). A Fundação partidária mantida
pelo PT foi batizada com o nome de Perseu.
Mas a coluna na “Folha” que era
“referência” (e de fato era) no período de transição democrática no Brasil
(anos 70 e 80) trazia a assinatura de outro Abramo: Cláudio. Depois de
afastá-lo da direção do jornal (para satisfazer a sanha da linha-dura do
regime, que não aceitava um “esquerdista”), Frias entregou a Claudio Abramo a
coluna na página 2. Prêmio de consolação? Se foi, Cláudio honrou o prêmio com
textos inteligentes e combativos. Mercadante lembra-se disso? Eu lembro.
Mercadante talvez tenha preferido
esquecer que era petista - no momento de escrever a carta. Mas na forma de
um ato falho clássico, a condição de
petista brotou. Ele quis falar de Claúdio, mas o nome de Perseu é que veio à
tona. Mercadante mercadejou quase tudo. Mas o inconsciente pregou-lhe uma peça.
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A carta de Mercadante no painel
do Leitor da “Folha” [registre-se que o jornal teve, ao menos, a dignidade de
publicar a informação - confirmada por várias fontes - de que Frias e a
"Folha" tinham grande proximidade com a ditadura e os torturadores;
Mercadante escreve para comentar o texto que leu sobre isso na própria
"Folha"]
A Folha publicou notícia de que o
empresário Octavio Frias de Oliveira visitou frequentemente o Dops e era amigo
pessoal do delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos mais ativos agentes da
repressão.
A denúncia partiu do ex-agente da
repressão, Cláudio Guerra. Recebi a informação perplexo e incrédulo.
Especialmente porque militei contra a ditadura militar na dura década de 70 e
tive a oportunidade de testemunhar o papel desempenhado pelo jornal, sob o
comando de “seu Frias”, na luta pelas liberdades democráticas.
A coluna de Perseu Abramo sempre
foi referência da luta estudantil nos dias difíceis de repressão. A página de
“Opinião” abriu espaço para o debate democrático e pluralista. A Folha
contribuiu decisivamente para a campanha das Diretas Já.
Ao longo desses 40 anos de
militância política, mesmo com opiniões muitas vezes opostas às da Folha,
testemunho que o jornal sempre garantiu o debate e a pluralidade de ideias, que
ajudaram a construir o Brasil democrático de hoje.
E “seu Frias” merece, por isso,
meu reconhecimento. Acredito que falo por muitos da minha geração.
Aloizio Mercadante, ministro de
Estado da Educação (Brasília, DF)
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