Joaquim Barbosa faz diferença?
![]() |
| Claudio Bernabucci |
Uma decepção profunda tomou conta
de mim, dias atrás, ao ver o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim
Barbosa, aparecer na tevê, como qualquer estrela do show business, para receber
o Prêmio Faz Diferença, outorgado pelo jornal O Globo. Trata-se de condecoração
muito badalada, graças à forca de propaganda do maior grupo editorial do País,
e nem por isso se eleva acima de sua caraterística prosaicamente mundana. Em princípio, nada contra esses tipos de
manifestações autocelebrativas aos quais, infelizmente, estamos quase
completamente habituados: o marketing e a publicidade tanto penetraram nossas
sociedades que são vividos pela maioria como aspectos fisiológicos da
existência. Nenhum purismo, então, ante atrizes e cantores, cineastas e
novelistas, donos de restaurantes e de produtos de beleza, que desfilam em
passarela num teatro carioca e se orgulham pela “honra” recebida, porque é
considerado normal, segundo a moral corrente, fazer uso de tais instrumentos e
ser usados.
![]() |
| O presidente do STF recebe um prêmio da Globo, o jornal que mais o submeteu a pressões à época do “mensalão” . Foto: Nelson Jr./SCO/STF |
Confesso que o comportamento
recente de Joaquim Barbosa na sociedade, inadequado sob certos aspectos, também
cria em mim não poucos problemas de coerência pessoal: por ter sempre declarado
meu respeito ao Supremo, já tive sérias divergências durante o processo do
chamado “mensalão”. Respeito justificado inclusive pelo fato de que o Tribunal
resulta integrado por 9 entre 11 juízes, nomeados por presidentes de muito
prestígio internacional, como Lula e Dilma. E se uma sólida maioria destes,
Barbosa à frente, chegou a condenar réus que militam na área política dos dois
presidentes, causando inevitavelmente desagrado para ambos, esta foi para mim
boa demonstração da validade das escolhas feitas. E da real independência do
Poder Judiciário em relação ao Executivo, como há de ser em um regime
democrático.
Sem entrar nas polêmicas que se
deram à época do “mensalão”, quero sublinhar minha convicção que efetivamente
ocorreu entre 2003 e 2005 um fenômeno grave de corrupção política – não mensal,
mas seguramente continuativa –, no relacionamento entre Executivo e
Legislativo, fora da ética republicana e das leis. Portanto, me perguntei,
então, se seria fundamentada a acusação aos juízes do Supremo de serem vítimas
de um irresistível condicionamento midiático. Não quero afirmar, em todo caso,
que tal bombardeio não existiu: muito pelo contrário, a pressão da imprensa
conservadora foi mórbida e irrespeitosa do trabalho do Judiciário.
As fanfarras da mis-en-scène
carioca celebram Barbosa e eu fico perplexo por ele considerar significativo
tal reconhecimento ostentado pelo O Globo, o jornal que se distinguiu como o
mais aceso e parcial dos torcedores. Tal promiscuidade, com o agravo da
inoportuna atração mundana, faz correr a Barbosa um grave risco, que não é só
de estilo, mas, sobretudo, de respeitabilidade diante do País e da comunidade
internacional.
* Claudio Bernabucci: Formado em Ciência Política na Universidade La Sapienza, em
Roma, é ex-assessor internacional da prefeitura da capital italiana e
ex-funcionário da ONU. Interpreta o Brasil, país que escolheu para morar a
partir de 2010, aos olhos do mundo.
Fonte: Carta Capital



Nenhum comentário:
Postar um comentário