Embaixada pediu a repórter da TV americana para ouvir Roberto Marinho, da Globo, e Nascimento Brito, diretor do Jornal do Brasil, vozes menos criticas à censura oficial
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| Natalia Viana |
Em 1973 o governo do general
Emílio Garrastazu Médici entrava em seu quarto ano, consolidando a presença da
chama “linha dura” militar no governo. A censura à imprensa se estruturou e se
oficializou, abarcando todos os principais veículos de imprensa do país. Sob
Médici, a maioria das redações recebiam bilhetinhos apócrifos ou ligações quase
diárias de membros da Polícia Federal – a força encarregada de controlar a
censura – com a relação de temas que não poderiam ser abordados: desde relatos
de tortura e prisões políticas até reportagens sobre a precária situação dos
trens, a pobreza no país ou escandalosos casos de corrupção. Outras, como Veja
e o Pasquim, tinham que enviar seu conteúdo para a censura prévia. O Estado de
S. Paulo convivia com um censor plantado dentro da redação, lendo todos os
textos para decidir o que podia e o que não podia ser publicado.
Para os Estados Unidos, porém,
país que propagandeava a democracia como resposta à “ameaça comunista”, nada
disso importava. Pelo contrário: documentos constantes no PlusD, do WikiLeaks,
mostram que a diplomacia americana chegou a defender a censura do regime
militar brasileiro perante um jornalista da poderosa rede de TV americana CBS.
“O cônsul geral de São Paulo
relata que o correspondente da CBS na América Latina, George Nathanson, está em
São Paulo, fazendo um vídeo sobre a censura à imprensa brasileira. A ideia de
realizar essa história foi incitada pelo artigo do New York Times de 21 de
feveriro sobre esse assunto”, escreveu o então embaixador dos EUA no Brasil,
William Rountree, que ficou no posto entre 1970 e 1973. O correspondente estava
filmando na redação do Estado de São Paulo e, segundo ele, a reportagem corria
muito bem.
Mas a embaixada tinha outra ideia
de como a censura deveria ser retratada. “Durante um almoço com Nathanson na
semana passado, o Oficial para Relações Públicas [da embaixada] sugeriu que
Nathanson tentasse obter todos os lados da história da censura no Brasil”,
descreve o documento de 9 de março de 1973, marcado “para uso oficial
limitado”. “Além de apenas falar com fontes da mídia veementemente opostos e
afetados pela censura presente, o oficial de relações públicas mencionou que
seria útil a Nathanson falar com figuras como o conselheiro presidencial
Coronel Otávio Costa [chefe da assessoria de Relações Públicas da Presidência]
e outros oficiais do governo, bem como representantes da mídia como Roberto
Marinho, da Globo, e Nascimento Brito, do jornal do Brasil, que veem a questão
da censura de maneira diferente da família Mesquita, do Estado”. Em seguida o
embaixador, satisfeito, afirma que o jornalista acatou a sugestão e “expressou
interesse nesta abordagem para fazer uma cobertura balanceada”.
EXISTE COBERTURA BALANCEADA SOBRE
CENSURA?
O aparato censório do regime militar
foi construído sob as asas do Ato Institucional no. 5. Logo após sua
decretação, em 13 de dezembro de 1968, o general Silvio Correia de Andrade,
delegado da Policia Federal em São Paulo, declarou em entrevista coletiva:
“Podem dizer que foi instaurado o arrocho à imprensa escrita, falada e
televisada por parte do Contel, sob minha fiscalização direta. Os jornais estão
sob censura no que diz respeito a greves, passeatas, comícios, agitação
estudantil e qualquer tipo de ataque às autoridades”.
A PF seria responsável por calar
a imprensa; no ano seguinte, dezenas de delegados destacados para esse fim
receberam uma extensa lista de normas. Eles deviam vetar notícias “falsas” ou
sensacionalistas, testemunhos em “off” (com fontes anônimas), comentários de pessoas
atingidas pelos atos institucionais ou ligadas a entidades estudantis
dissolvidas. Também eram proibidas notícias sobre todo tipo de repressão:
cassações de mandatos, suspensão de direitos políticos, prisões, tortura.
Em 1971 o ministro da justiça Alfredo
Buzaid aumentou a lista, proibindo também notícias “sensacionalistas” que
prejudicassem a imagem do Brasil no exterior, notícias que colocassem em perigo
a política econômica do governo, e até mesmo a “divulgação alarmista” de
“movimentos subversivos” em países estrangeiros. Segundo levantamento do
jornalista Élio Gaspari, entre 1972 e 1975 o Jornal do Brasil recebeu 270
ordens enviadas por telefone ou por escrito pelos policiais da PF. Apenas em
1973 – ano em que os diplomatas americanos queriam suavizar a cobertura da CBS
sobre a censura brasileira – o pesquisador Paolo Marconi – consultando diversos
veículos como Folha de S. Paulo, Rádio e TV Bandeirantes, em São Paulo, e Rádio
e TV, em Salvador – contabilizou um total de 143 ordens enviadas pela PF. A
maioria dos veículos praticava, então, a auto-censura, descartando os temas
proibidos. É o caso da Globo de Roberto Marinho e do Jornal do Brasil de
Nascimento Brito, apontados pelo embaixador como menos críticos à censura
oficial.
Os veículos que mostravam alguma
resistência tinham edições inteiras apreendidas ou eram submetidos à censura
prévia – caso do Jornal da Tarde e da Revista Veja, então comandada por Mino
Carta, que eram visitados por censores ou obrigados a mandar as edições antes
de publicadas para a sede da PF em Brasília. Convivendo diariamente com um
censor da PF, o Estado de S. Paulo teve 1136 reportagens censuradas entre março
de 73 e janeiro de 75. Foram vetadas matérias sobre a Petrobrás, a questão
indígena, a política de saúde pública, corrupção no ensino e até mesmo racismo
no futebol.
Por sua vez, semanários pequenos
e mais independentes como Opinião, baseado no Rio de Janeiro, e Movimento, de
São Paulo, tiveram jornalistas presos, edições apreendidas e seus diretores
interrogados inúmeras vezes. Daí o caráter “econômico” da censura, que foi
responsável pelo desmantelamento, por asfixia financeira, de jornais de extrema
qualidade e linhas editoriais progressistas – provocando um impacto que até
hoje influencia o cenário da imprensa brasileira. Publicações independentes
como Opinião, Ex, Movimento e Pasquim tiveram edições inteiras apreendidas; as
três primeiras tiveram que fechar as portas sob o peso da censura. Só o jornal
Movimento teve 40% de todo o seu conteúdo censurado – mais de 3 mil artigos,
mais de 4,5 milhões de palavras.
OS AMERICANOS SABIAM, CLARO
Nada disso era novidade para o
Departamento de Estado chefiado por Henry Kissinger – o mesmo que criticou a
lei de acesso à informação americana afirmando “antes da lei eu costumava dizer
em reuniões, ‘o que é ilegal nós fazemos imediatamente; o que é
inconstitucional leva mais tempo’, mas desde a lei eu tenho medo de dizer
coisas assim”. Na verdade, os diplomatas americanos mantinham contato próximo
com jornalistas brasileiros, acompanhando de perto as consequências da censura.
Assim, em 23 de março de 1973 –
mesmo mês em que a embaixada defendia a censura junto ao correspondente da CBS
– o cônsul de São Paulo, Frederick Chapin, relatou uma longa conversa com odono do Estadão, Julio Mesquita, sobre a censura ao jornal. Embora o general
Ernesto Geisel tivesse assumido com o compromisso de promover a “distensão
política”, com a restauração dos direitos civis, nas duas semanas anteriores a
tesoura da censura havia cortado seis matérias do Estadão, que as substituíra
por cartas e receitas culinárias. Ao mesmo tempo, relata Chapin, Julio Mesquita
enviara telegramas a todos os congressistas, e o Estadão publicou uma nota
avisando que quem quisesse saber por que conteúdos desimportantes estavam
aparecendo no jornal poderia ligar para a redação – receberam 167 ligações.
“Julio Mesquita disse que a forte pressão que ele estava exercendo no governo
para relaxar a censura estava fazendo efeito”, relatou Chapin, já que o Estadão
chegara a publicar histórias – incluindo uma sobre censura – que não teriam
passado. “Julio disse que pretendia continuar a pressionar o governo na questão
da censura”.
Ainda assim, os censores só
sairiam do Estadão dois anos depois.
Sob o embaixador John Crimmins, que
assumiu o posto após Rountree, a embaixada dos EUA manteve uma “postura de não
pôr as mãos” no tema da censura, segundo palavras do próprio. Mas continuava
acompanhando de perto o despropósito da censura, conversando diretamente com
editores e publishers. É o que mostra um documento do Rio de Janeiro, datado de
13 de maio de 1974, detalhando a situação do jornal Opinião. Em conversa com o
então cônsul geral Clarence Boonstra, o empresário Fernando Gasparian, do
Opinião, contava sobre os cortes mais recentes: uma entrevista com o então
candidato a presidência francesa, François Mitterand, e com o cardeal Dom Paulo
Evaristo Arns. Nesse momento, a censura exigia novamente que o jornal fosse
enviado a Brasília, antes de ser publicado, até quarta-feira de cada semana.
“Gasparian estava ‘chocado e desanimado’ com os últimos acontecimentos”, relata
Chapin, e decidiu ir a Brasília para investigar o motivo dos últimos cortes com
o diretor-geral da PF, o coronel Moacyr Coelho. O coronel, que Gasparian
descrevia como “deprimido e vacilante”, lhe disse que a censura havia sido
decidida “em altas instâncias do Ministério da Justiça” e que havia outros
jornais sob maior pressão, escreve Boonstra. “Ele voltou achando que ‘alguma
coisa aconteceu dentro do alto escalão do governo para forçá-los a voltar às
antigas restrições’. Gasparian disse que ouviu rumores em Brasília que os
militares linha-dura não estavam felizes com os passos do regime em direção à
liberalização e haviam demandado ‘apertar’ o controle da imprensa e de outras
áreas”, diz o despacho diplomático.
A partir de 1975, a censura se tornou
mais seletiva e a censura prévia foi sendo retirada aos poucos. Não foi um
processo decisivo, tendo idas e vindas de acordo com as pressões do momento,
como mostram as conversas constamente relatadas pelos diplomatas americanos. Em
4 de abril daquele ano, a embaixada em Brasília
enviou a Washington um relato sobre a apreensão do jornal Pasquim, do
Rio de Janeiro, pela PF, ocorrida logo depois do veículo ter tido a censura
prévia encerrada, e a uma edição comemorativa especialmente robusta. Chamando-o
de “tabloide satírico semanal de centro-esquerda” Crimmins relata que, durante
5 anos, o semanário fora obrigado a enviar para Brasília duas a três vezes mais
material do que necessário – texto, charges e fotos – para ser cortado.
“De acordo com [Millôr] Fernandes
e outras fontes bem informadas da imprensa, o alvo real da apreensão do Pasquim
era um editorial forte de Fernandes detalhando os problemas do jornal com a
censura. Esses problemas incluíam: uma queda brusca de leitores (Fernandes
afirma que houve uma queda de 200 mil para 100 mil em circulação nos seis
primeiros meses de censura; alguns observadores acreditam que o cálculo atual
seja de 50 mil) e assédio da equipe do Pasquim quando a censura teve início
(ex. interrogatório policial da maioria deles e prisão de dez editores por dois
meses, seguida da sua libertação e o arquivamento subsequente do inquérito).
Fernandes também argumentava [no editorial] que o fim da censura prévia não
significa que a imprensa livre brasileira possa imprimir o que quer e lembrava
aos leitores que muitos dos jornais brasileiros ainda estavam sujeitos à
censura”. O comunicado encerrava dizendo que a apreensão “foi um enorme golpe
em termos financeiros”, já que o Pasquim dependia de vendas em banca.
A VEJA DE MINO CARTA
A diplomacia americana também
acompanhou de perto o périplo da revista Veja, fundada e editada por Mino Carta
entre 1969 e 1976, e submetida a dois tipos de censura prévia ao longo dos
anos: no geral, algumas vezes por semana o material tinha que ser enviado à
sede da PF em São Paulo; mas em algumas ocasiões o material tinha que ser
enviado a Brasília dias antes da publicação.
Lembrando-se do episódio, Mino
Carta contou á reportagem que era Falcao quem, pessoalmente, decidia sobre a
censura. “Eu tinha ido almoçar com ele no Rio de Janeiro antes da posse, e ele
me disse que a censura na Veja ia acabar”. Quatro dias depois de tomar posse –
no dia 15 de março de 1974 – Falcão o chamou a Brasília. “Ele me disse que ia
acabar a censura, e me deu o seu livro de presente, ‘A Revolução Permanente’.
Perguntei: sem nenhum compromisso? A censura saiu no final de março, e comecei
a publicar o que não tinha publicado até então. Aí voltou”.
Em maio de 1974, foi a vez do consulado de São
Paulo informar sobre a censura a Veja. O primeiro despacho, do dia 10, é
assinado pelo cônsul-geral Frederick Chapin. “Uma empreitada de censura ameaça
a continuação de Veja, respeitada revista semanal”, descreve o cônsul A nova
ordem exigia que todo conteúdo da revista fosse enviado a Brasília na
quarta-feira, inviabilizando a cobertura de fatos “quentes”. Mino Carta – a
quem Chapin chama de “um dos jornalistas mais hábeis e mais conhecidos” do país
– contava que a nova ordem era uma represália, em especial, por uma charge de
Millôr Fernandes mostrando um homem sendo torturado, sobre a legenda “nada
consta”.
“Essa semana, quando Mino soube
do endurecimento, ele ligou para o general Golbery, que foi ‘evasivo e
hipócrita’. O general Golbery mencionou especificamente alguma insatisfação
sobre a charge de Millôr Fernandes”. Decepcionado, já que tanto Golbery quanto
o ministro da justiça de Geisel, Armando Falcão, haviam se manifestado contra a
censura, mas estariam cedendo aos militares “linha dura”, Mino Carta ameaçava
deixar a Veja. “Carta disse que não quer ter mais nada a ver com Golbery e
Falcão porque ‘seria como lidar com office boys’”, relata Chapin. “Essas
ordens, ele adicionou, vieram do ministro do Exército Dale Coutinho, um
representante do ‘sistema’, ou como ele chama, ‘o capo máfia’ que ele [Mino
Carta] acredita que controla o país’”, relata o despacho enviado a Washington.
“O cumprimento das novas regras
vai efetivamente matar a Veja, segundo Carta”, escreve o cônsul, que finaliza o
documento narrando que, para o jornalista, “o propósito do endurecimento não é
destruir Veja, mas colocar a revista e a editora Abril ‘de joelhos”.
Roberto Civita, vice-presidente e
filho do dono da editora Abril, viajaria para Brasília em busca de um acordo –
que também foi acompanhado de perto pelos americanos. Em 28 de maio, outrodespacho do consulado de São Paulo, relata que a ordem fora revertida. Como
narrou Victor Civita ao americano, “[Dale] Coutinho se recusou a ver Roberto,
que então ligou para Golbery e para o ministro Falcão”. A redação, portanto,
voltaria a receber a visita de censores. O próprio Golbery e Falcão haviam
servido como “fiadores” do acordo entre os censores e Veja. “Victor estava
otimista sobre as relações futuras com a administração Geisel”, relatou Chapin.
O dono da Abril afirmou: “eu só tenho três ou quatro amigos no governo agora,
mas em um ano ou mais eu vou conhecer bem 10 ou 12 deles”.
No entanto, a paz não duraria
muito, reflexo da queda de braço interna à administração Geisel. Em agosto de 1975, a ordem de enviar o
material para Brasília voltou – e foi prontamente relatada o Departamento de
Estado dos EUA. O estopim fora uma edição recente de um discurso de Geisel, que
Veja via como um sinal de que a distensão estava morta. Hernani Donado,
Relações Públicas da revista, conversou com os diplomatas. “Donato disse que a
linha dura ficou irritada pelos elogios de Veja ao general Golbery (….) Golbery
ligou pessoalmente para Mino Carta e pediu que ele parasse com as histórias:
‘toda palavra boa que você fala sobre mim é uma palavra ruim sobre os oponentes
da distensão’”. Segundo o embaixador Crimmins, Hernani Donato também acreditava
que censores de Brasília “não confiavam totalmente” nos seus subordinados de
São Paulo, e sentiam “que eles podem ter se tornado muito próximos de
jornalistas locais”. Em 27 de agosto, diplomatas da embaixada voltaram a
almoçar com Victor Civita para discutir o assunto. “Ele contou que lhe foi dito
para ser muito cuidadoso porque o governo tinha o poder de ‘colocá-lo de
joelhos’ quando quisesse”.
Na visão de Mino Carta, foi o que
aconteceu no ano seguinte. “A editora Abril queria um empréstimo de 50 milhões
de cruzeiros da Caixa Econômica Federal, mas o Falcão disse que não ia
acontecer porque tinha lá na editora uma revista que era contra eles. Eles
queriam a minha cabeça”, lembra o jornalista,
em entrevista à Pública. “Eu era diretor da empresa, podia ter pedido
uma porcentagemn do dinheirão que eles iam ganhar com o empréstimo. Mas falei
pra eles que não queria um centavo deles, e fui embora. Não sem antes jogar um
cinzeiro em cima do Roberto Civita”.
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