![]() |
| O Ato aconteceu nessa tarde de sábado |
Carlos Alberto Augusto, acusado de ter torturado e assassinado
militantes, hoje é delegado de segunda classe de Itatiba
De Itatiba (SP)
![]() |
| Igor Ojeda |
“Atenção, cidadão de Itatiba!”
Olhos e ouvidos a postos. “O delegado de sua cidade é um assassino e torturador
da ditadura!” Surpresa, assombro, interrogação. Não, a maior parte da população
da cidade do interior paulista não sabe que Carlos Alberto Augusto, o Carlinhos
Metralha, é acusado de ter torturado e assassinado militantes políticos durante
o regime militar (1964-1985). Delegado de segunda classe do município desde
fevereiro, ele foi alvo na tarde deste sábado de um “esculacho” organizado pela
Frente de Esculacho Popular (FEP).
Os cerca de 40 integrantes e
apoiadores da FEP chegaram em um ônibus que partiu de São Paulo, entre eles,
ativistas de direitos humanos, familiares de vítimas da ditadura e
ex-militantes que lutaram contra o regime militar. Por volta das 13 horas,
começaram a distribuir panfletos contendo o currículo de Augusto para os
moradores do centro da cidade. Na praça da Bandeira, na região central, além da
distribuição de panfletos, outro grupo de militantes estendia diversos “varais”
com cartazes pendurados que lembravam a atuação do delegado durante o regime
autoritário e suas vítimas, enquanto um grupo de teatro e uma fanfarra
realizavam performances artísticas relacionadas à ditadura. No chão, uma faixa
com o lema “se não há justiça, haverá esculacho popular”.
“Estou horrorizada com essa
história. É um absurdo. Aqui ninguém o conhece. Será que o prefeito vai tomar
uma providência?”, diz Maria Goretti Rizzo. “É uma vergonha”. A senhora de 59
anos lembra a ocasião em que agentes do regime entraram em sua casa no distrito
de Joaquim Egídio, em Campinas (SP), atrás do seu pai. Seu “crime” era possuir
um disco do cantor e compositor Geraldo Vandré. “Eu tinha 15 anos, fiquei
desesperada”, conta.
Augusto, conhecido na época
também como “Carteira Preta”, integrava a equipe de investigação do
Departamento de Ordem Política e Social (Dops) comandada pelo delegado Sérgio
Paranhos Fleury, temido torturador e principal artífice dos esquadrões da morte
que atuavam nos anos de 1970. Desde outubro do ano passado, o delegado é réu em
um processo criminal movido pelo Ministério Público Federal, que o acusa pelo
sequestro qualificado do militante Edgar de Aquino Duarte, em junho de 1971. Na
ação, impetrada pelo procurador Sérgio Suiama, também são réus Carlos Alberto
Brilhante Ustra, ex-comandante do Destacamento de Operações de Informações -
Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), e Alcides Singillo, delegado
aposentado. Recentemente, Suiama apresentou um pedido na Justiça para que
Augusto seja afastado do cargo enquanto dure o processo.
Os moradores locais liam as
informações com atenção. Aos poucos, atraídos pelo som da fanfarra e as
esquetes da companhia de teatro, iam se aproximando. Nilton Godoy Barbosa
reconheceu, entre as fotos de inúmeros assassinados e presos políticos da
época, a do amigo Luiz Hirata, morto em 1971. “Morávamos na mesma república em
Piracicaba, quando éramos estudantes”, conta, visivelmente emocionado, o senhor
de 69 anos, natural de Itatiba e hoje aposentado como engenheiro agrônomo. “Sou
um socialista romântico”, revela. Já Fabiana Carmem Ferreira, de 21 anos,
explicava ao marido, que carregava no colo o filho de ambos, de 10 meses de
idade, o que tinha ouvido de um dos manifestantes. “Estou sabendo hoje que o delegado
daqui foi torturador. Estou meio abismada”, diz à reportagem. “A população
deveria fazer algo. O delegado que deveria proteger a gente não pode ter nada
sujo por trás.”
Carlos Alberto Augusto trabalhou
na equipe de Fleury no Dops de 1970
a 1977. Foi nesse órgão de repressão que ganhou o
apelido de “Metralha”, uma vez que costumava circular pelos corredores com uma
metralhadora a tiracolo. Ele é acusado ainda de ter organizado o chamado
Massacre da Chácara São Bento, em 1973, em Pernambuco. A ação, possibilitada
pela atuação do agente infiltrado Cabo Anselmo – hoje, protegido de Augusto –
teve como resultado o assassinato de seis militantes da Vanguarda Popular
Revolucionária (VPR), inclusive de Soledad Barret Viedma, que esperava um filho
de Anselmo.
Segundo Cândida Guariba,
integrante da FEP, a escolha de Carlos Alberto Augusto como alvo teve como
objetivo “demonstrar a impunidade
desses agentes que cometeram crimes contra a humanidade”. Além disso, diz ela, a
organização quer destacar que o Estado brasileiro continua cometendo tais
crimes. “Vale lembrar que estamos em maio, mês das Mães de Maio”, explica,
fazendo referência ao movimento de familiares de vítimas dos assassinatos de
maio de 2006, quando, sob o pretexto de revidar os ataques do PCC, a Polícia
Militar de São Paulo matou mais de 400 civis em menos de duas semanas.
* A reportagem está solicitando
uma posição do delegado de Itatiba e do governo do Estado.

.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário