20/04/2013
Na juventude, Zé de Abreu
descobriu a arte e a política. No autoexílio, novas possibilidades para o ser
humano. Na vida, convivem o ator e o militante.
| Sou bissexual, e daí? Posso escolher quem eu beijo? Quando quero beijar uma pessoa não peço atestado de preferência sexual, só depende de ela querer" (Foto: Luciana Whitaker/RBA) |
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| Guilherme Bryan |
A veia militante de Zé de Abreu
verteu para a cultura e a política. Simultaneamente. Em 1967, quando entrou na
faculdade de Direito da PUC de São Paulo, estreou no teatro com Morte e Vida
Severina, obra de João Cabral de Melo Neto musicada por Chico Buarque, uma
premiada produção do Teatro da Universidade Católica (Tuca). Tinha 21 anos. Ali
conheceu o então líder estudantil José Dirceu. Ambos estavam entre os 719
presos, ano seguinte, no 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE),
em Ibiúna, no interior paulista.
“Entrei na faculdade e a Ação
Popular era uma entidade de esquerda ligada à igreja mais evoluída, que tinha
montado o grupo de teatro do Tuca, para fazer política”, lembra José Pereira de
Abreu Júnior, que completará 69 anos em 24 de maio. Aos 14, ele deixou Santa
Rita do Passa Quatro, a 250
quilômetros de São Paulo, rumo à capital. Foi assistente
de laboratório, office-boy e, na faculdade, descobriu novos mundos. “O centro
acadêmico era estimulante.”
Com passeata toda semana era
impossível não participar. “Acabei sendo um dos delegados da PUC para o
congresso da UNE, participei da organização. Havia uma briga bastante forte
entre a AP e a dissidência do Partidão (o Partido Comunista Brasileiro). Quando
houve a informação de que a polícia havia cercado, acordamos os líderes,
fizemos uma reunião, e a AP decidiu que não fugiria. Então se decidiu que
ficaria todo mundo.”
A barra pesava em dezembro de
1968. O AI-5 marca o início da fase mais implacável do regime iniciado em 1964.
Censura, Congresso fechado, tortura, desaparecimentos, violência física e
moral. “A luta política foi totalmente proibida. Um congresso da UNE era motivo
de cadeia e processo, qualquer manifestação era proibida. Restaram a
clandestinidade, a luta armada”, diz Zé de Abreu, que nunca pegou em armas, mas
ajudou no deslocamento de pessoas clandestinas. Ele resolveu se exilar na
Europa em 1968. “Minha irmã trabalhava no departamento de identificação civil
da polícia de São Paulo e conseguiu um passaporte para mim, meio por baixo dos
panos, para pegar um navio em Rio Grande e descer em Cannes (França).”
Dali, o roteiro incluiu Paris e
Londres. Na capital inglesa, trabalhou como lavador de pratos e morou numa
comunidade com 11 brasileiros. Ia a shows de rock, praticava alimentação
macrobiótica e meditação. Antes de regressar, em 1974, morou na Holanda e na
Grécia. Foi um “autoexílio” de descobertas. “Encontro outra realidade lá fora,
a da luta contra o capitalismo, o consumismo, o crescer a qualquer custo. Foi
um movimento filosófico, mas ficou com essa pecha pejorativa”, lembra,
indicando a leitura de Corpos em Revolta, do filósofo norte-americano Thomas
Hanna. Em 1970, Hanna escrevia que os corpos humanos se encontravam “em estado
de rebelião cultural” e da sociedade tecnológica surgiria um novo ser humano.
Dicotomia
Assim, Zé de Abreu conta que
viveu “os dois momentos” – da luta política e do movimento hippie. A busca pela
revolução interior a partir da mudança de comportamento para, a partir daí,
ajudar a mudar o mundo. A peça Bonifácio Bilhões remete a essa dicotomia. Com
texto de João Bethencourt e direção de Ernesto Piccolo, está atualmente em
cartaz, mas foi montada pela primeira vez em 1975
O ator interpreta o economista
Walter Antunes, que, na fila da casa lotérica, promete ao vendedor de goiabada
Bonifácio Brilhante dividir o prêmio com o novo amigo, se ganhar. “Ele é um
socialista que escreveu vários livros sobre a distribuição injusta da riqueza,
o capital espoliador e a mais-valia, mas quando ganha na loteria não consegue
dividir o prêmio. Não consegue aplicar o que prega”, observa. “Um diálogo muito
bom da peça é quando ele diz 'sou socialista', e a mulher responde 'socialista
na vida pública, egoísta na vida privada'.”
Neste momento da vida
profissional, e um quase um ano depois do sucesso da novela Avenida Brasil,
ainda saboreia o sucesso do Nilo. “Quando a gente começa, não cria a
expectativa de que aquele personagem será assim ou assado. Para o ator, é um
trabalho como qualquer outro. O Nilo foi encarado por mim como qualquer outro e
estourou de uma maneira como há muito tempo não estourava. Acho que desde Ti Ti
Ti (1985) e Anos Dourados (1986)”, lembra, citando outros papéis “muito bons”,
como o delegado Motinha, de A Indomada (1997), “que caía num buraco e saía no
Japão”, e Josivaldo, de Senhora do Destino (2004/2005), marido de Do Carmo
(Susana Vieira) e amante da Nazaré (Renata Sorrah).
Retorno
Também considera especial a
atuação na telenovela O Outro (1987), na qual interpretou o gaúcho Genésio.
“Ela teve uma característica marcante porque eu dirigi mais de 100 capítulos
daquela novela. Virei diretor sem querer, de um dia para o outro. Foi muito
gostoso, porque era uma coisa meio irresponsável. Fiz um curso de direção com o
Herval Rossano, e aí o Ricardo Waddington acabou me convidando para ser seu
assistente. Depois de uns dias, teve de sair para cuidar de uma nova novela, e
acabei virando diretor”, recorda.
Quando voltou ao país em 1974, Zé
de Abreu se mudou para Pelotas (RS), com a então mulher, a atriz e professora de
teatro Nara Keiserman, com quem realizou a primeira montagem no Rio Grande do
Sul de Os Saltimbancos, musical que na versão em português ganhou canções de
Chico Buarque. Com Nara, o ator teve Ana, Théo e Cristiano. Teve mais dois
filhos: Rodrigo, com a advogada Neuza Serroni, e o caçula Bernardo, com a
economista Andrea Pontual. Acompanhou o parto de todos. E sofreu a dor de
enterrar um deles, Rodrigo, que morreu em decorrência de um acidente, em 1991,
aos 23 anos. Há oito anos vive com Camila Mosquella.
Zé de Abreu virou global em 1979.
Com o sucesso do filme A Intrusa, de Carlos Hugo Christensen, e a vitória como
melhor ator no Festival de Gramado, foi contratado pela emissora. Estreou na
novela As Três Marias, de 1980. De lá para cá, foram mais de 20 novelas e
algumas minisséries. E garante que nunca sofreu represálias em função de seu
posicionamento político. Ele também teve passagem pela extinta Rede Manchete,
na qual atuou em produções como Pantanal e Ana Raio e Zé Trovão, e trabalhou em
mais de duas dezenas de produções cinematográficas. “Minha mãe só considerou
que eu realmente tinha uma profissão quando entrei na Globo”, diz.
Candidatura
Sem abrir mão nem da carreira,
nem da militância política, Abreu talvez se candidate a deputado federal,
estimulado pelo senador Lindbergh Farias (PT-RJ), o qual pretende apoiar caso
ele dispute o governo do Rio. “Eu não acho importante me candidatar e ainda não
tenho uma decisão. Na última vez em que conversei com o Lula, ele me disse que
tenho até outubro. Então vamos deixar mais para a frente”, conta.
Ele convive com Lula desde o
início da década de 1980. “Não entrei no PT na época porque não gostava de
reuniões. Na campanha presidencial de 1989, participei bastante. Estive com ele
algumas vezes no Planalto em 2004, 2005 e durante a campanha pela reeleição (em
2006). De vez em quando a gente se encontra, e ele é sempre muito efusivo
comigo.” Durante a campanha de Dilma Rousseff, o ator postou um vídeo,
atualmente com mais de 100 mil views no YouTube, em que lembra o currículo do
então candidato José Serra, do PSDB.
Zé de Abreu garante que hoje não
se interessa muito pelo ativismo na área teatral, apesar de destacar que, em
1977, lutou pela lei que regulamentou a profissão de artistas e técnicos em
espetáculos e diversões. Foi também diretor da associação de produtores do Rio
Grande do Sul e ajudou a organizar o sindicato dos artistas de Porto Alegre.
“Fizemos um grande congresso nacional de artistas e técnicos, em Canela, o
primeiro do final da ditadura. Não sabíamos bem o que se podia ou não falar.
Foi quando os sindicatos começaram a se reorganizar. A partir dos anos 90,
começaram a haver distorções e a lei passou a não ser mais obedecida, assim
como o horário de trabalho. Alguns presidentes de sindicatos de artistas
fizeram acordos com as emissoras”, lamenta.
Em sua vida pública, Zé de Abreu
é conhecido pelo arrojo ao manifestar suas opiniões. E o faz sem cerimônias em
seu perfil no Twitter. Divertiu-se muito com o rebuliço causado por suas
provocações a respeito da liberdade de opção sexual. “Sou bissexual, e daí?
Posso escolher quem eu beijo? Quando quero beijar uma pessoa não peço atestado
de preferência sexual, só depende de ela querer. Não posso obrigá-la a me
beijar. Quero saber se posso ter opção! Tenho de beijar um bêbado que invade
minha individualidade só porque ele é gay?”, escreveu. As redes sociais, para
ele, são mais uma maneira de fazer política. “Foi algo que surgiu na minha
vida. Não tive intenção de fazer isso para dar tal resultado. Fui fazendo.


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