26/04/13

![]() |
| Eduardo Guimarães/ blog da Cidadania |
Na semana que finda, o
ex-delegado da Polícia Civil Cláudio Guerra delatou o comparsa de atrocidades
durante a ditadura militar, o fundador do jornal Folha de São Paulo, Octavio
Frias de Oliveira (1912-2007). Revelou que ele visitava “frequentemente” o Dops
(Departamento de Ordem Política e Social), que, como se sabe, era um centro de
torturas.
A denúncia foi feita ao vereador Gilberto
Natalini, presidente da Comissão da Verdade da Câmara Municipal de São Paulo.
Além dessa denúncia, também revelou que a Folha emprestou carros e ajudou a
financiar os órgãos da repressão na época – denúncia que não é nova e que
figura no livro Cães de Guarda, da doutora em História Social Beatriz Kushnir.
Palavras do denunciante: “O Frias
visitava o Dops constantemente. Isso está registrado.”
Sim, está registrado.
Recentemente, a Comissão da Verdade de São Paulo recebeu o livro de visitas do
DOPS, onde empresários como Frias parece que davam expediente, sendo
“inexplicável” a razão para comparecerem a um centro de torturas e morte
seguidas vezes.
Segundo a própria Folha de São
Paulo, em matéria publicada na quinta-feira, “Guerra disse também que o
publisher da Folha era ‘amigo pessoal’ do delegado Sérgio Paranhos Fleury, um
dos mais ativos agentes da repressão”.
O depoimento do congênere de
Frias durante a ditadura foi apresentado em vídeo na terça-feira em audiência
da Comissão da Verdade na Câmara Municipal de São Paulo.
Verdade seja dita, a Folha
publicou as denúncias contra si em sua edição de quinta-feira. A coragem do
jornal, porém, contrasta com a covardia do ministro da Educação, Aloizio
Mercadante, que enviou carta ao Painel do Leitor da publicação a fim de
bajulá-la. Fazendo isso, Mercadante envergonhou o PT e esbofeteou as vítimas da
ditadura.
Leia, abaixo, o texto patético de
alguém que é fundador do PT e ministro da educação do governo Dilma e que foi
publicado na edição da Folha desta sexta-feira.
—–
A Folha publicou notícia de que o
empresário Octavio Frias de Oliveira visitou frequentemente o Dops e era amigo
pessoal do delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos mais ativos agentes da
repressão.
A denúncia partiu do ex-agente da
repressão, Cláudio Guerra. Recebi a informação perplexo e incrédulo.
Especialmente porque militei contra a ditadura militar na dura década de 70 e
tive a oportunidade de testemunhar o papel desempenhado pelo jornal, sob o
comando de “seu Frias”, na luta pelas liberdades democráticas.
A coluna de Perseu Abramo sempre
foi referência da luta estudantil nos dias difíceis de repressão. A página de
“Opinião” abriu espaço para o debate democrático e pluralista. A Folha
contribuiu decisivamente para a campanha das Diretas Já.
Ao longo desses 40 anos de
militância política, mesmo com opiniões muitas vezes opostas às da Folha,
testemunho que o jornal sempre garantiu o debate e a pluralidade de ideias, que
ajudaram a construir o Brasil democrático de hoje.
E “seu Frias” merece, por isso,
meu reconhecimento. Acredito que falo por muitos da minha geração.
Aloizio Mercadante, ministro de
Estado da Educação (Brasília, DF)
—–
Quem escreveu esse texto
vergonhoso não foi um general de pijama nem um dos barões da mídia, foi um dos
fundadores do PT em 1980, vice-presidente do partido entre 1991 e 1999, senador
pelo estado de São Paulo entre 2003 e 2010, ministro da Ciência, Tecnologia e
Inovação do Brasil de 2011 a
2012 e que se tornou ministro da Educação no ano passado.
Apesar de Mercadante ser filho de
general do Exército, não parece que seja essa a sua motivação para se fazer de
desinformado e, assim, dar à Folha o que ela precisava, um depoimento em defesa
de Frias pai por parte de alguém que, por ser petista, seria insuspeito de
estar mentindo a favor dele – a Folha parece reconhecer que está publicando o
depoimento de um adversário político.
Mercadante apenas bajula a Folha
como tantos outros petistas que acham que podem ser menos pisoteados pelo
jornal se rastejarem diante dele e se ajoelharem em seu altar de mentiras. Mas
caso o ministro da educação seja apenas um idiota que chegou aonde chegou sem
conhecer a história de seu país, aí vão alguns esclarecimentos a ele.
O homem fardado e a declaração na
foto que encima este texto correspondem a Otávio Frias de Oliveira, o falecido
fundador do jornal Folha de São Paulo. Imagem e palavras pertencem a momentos
distintos de sua vida. Todavia, unidas, explicam quem foi ele.
Frias de Oliveira lutou na
Revolução Constitucionalista de 1932, que tentou dar um golpe de Estado contra
Getúlio Vargas. Coerente com seu apreço pelo militarismo e pela derrubada de
governos dos quais não gostava, apoiou o golpe militar de 1964.
Nesse período, a Folha de São
Paulo serviu de voz e pernas para os ditadores que se sucederiam no poder ao
exaltá-los e ao transportar para eles seus presos políticos até os centros de
tortura do regime.
No dia 21 de setembro de 1971, a Ação Libertadora
Nacional (ALN) incendiou camionetes da Folha que eram utilizadas para entregar
jornais. Os responsáveis acusavam o dono do jornal de emprestar os veículos
para transporte de presos políticos. Frias de Oliveira respondeu ao atentado
publicando um editorial na primeira página no dia seguinte, sob o título
“Banditismo”.
Eis um trecho do texto:
—–
Os ataques do terrorismo não
alterarão a nossa linha de conduta. Como o pior cego é o que não quer ver, o
pior do terrorismo é não compreender que no Brasil não há lugar para ele. Nunca
houve. E de maneira especial não há hoje, quando um governo sério, responsável,
respeitável e com indiscutível apoio popular está levando o Brasil pelos
seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social-realidade que nenhum
brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama. [...] Um
país, enfim, de onde a subversão -que se alimenta do ódio e cultiva a violência
– está sendo definitivamente erradicada, com o decidido apoio do povo e da
imprensa, que reflete os sentimentos deste. Essa mesma imprensa que os
remanescentes do terror querem golpear.”
(Editorial: Banditismo –
publicado em 22 de setembro de 1971; Octavio Frias de Oliveira).
—–
O presidente da República de
então era Emílio Garrastazu Médici. Nomeado presidente pelos militares,
comandou o período mais duro da ditadura militar. Foi a época do auge das
prisões, torturas e assassinatos de militantes políticos de esquerda pelo
regime.
Apesar dos elogios de Frias de
Oliveira à ditadura, segundo a Fundação Getúlio Vargas foi no governo Médici
que a miséria e a concentração de renda ganharam impulso. O Brasil teve o 9º
Produto Nacional Bruto do mundo no período, mas em desnutrição perdia apenas
para Índia, Indonésia, Bangladesh, Paquistão e Filipinas.
O que Aloizio Mercadante fez, não
tem nome. Nem covardia e oportunismo definem seu ato. O petista, porém,
engana-se sobre a Folha. Se for candidato a governador, ano que vem, terá
oposição feroz do jornal. Sua bajulação foi inútil.
Concluo este texto, portanto, com
uma promessa: enquanto eu viver, esse político nunca mais receberá um voto meu.
Além disso, exorto quem me lê e concorda com o que aqui foi dito a fazer o
mesmo, pois quem age como o ministro Aloizio Mercandante agiu não só não merece
confiança, mas merece muita desconfiança.

Nenhum comentário:
Postar um comentário