A trajetória de Luiz Inácio Lula
da Silva é conhecida. Ex-retirante, tornou-se operário, líder sindical,
presidente e, depois disso, aprovado pela grande maioria do seu povo, passou a
ser também reconhecido internacionalmente. À esquerda, pelo historiador Eric
Hobsbawn, que afirmou que Lula "ajudou a mudar o equilíbrio do mundo, ao
trazer os países em desenvolvimento para o centro das coisas". No mercado
financeiro, por Jim O'Neill, da Goldman Sachs, que criou a palavra BRICs
(Brasil, Rússia, Índia e China) e o definiu como o maior estadista do mundo nas
últimas décadas.
Lula, portanto, é um ativo
valioso, que interessa a qualquer publicação no mundo. Além disso, com sua
agenda internacional focada, sobretudo, na África, ele é hoje seríssimo
candidato ao Prêmio Nobel da Paz. Por isso mesmo, recebeu um convite para
publicar uma coluna mensal no The New York Times, maior jornal do mundo, onde poderá
defender suas causas e bandeiras. A história de superação de Lula, desprezada
por analistas rancorosos e invejosos no Brasil, mas reconhecida até por seus
adversários políticos, hoje inspira líderes do mundo inteiro.
Isso não significa, no entanto, que
Lula está obrigado a redigir de próprio punho seus artigos. Como colunista,
Lula, naturalmente, delegará a tarefa de produzir textos a algum escriba. É
assim, sempre foi e sempre será no mundo inteiro. Políticos são homens de ação.
Quando transplantam suas ideias para o papel, em geral, contam com auxílio
profissional. Afinal, é para isso que existem jornalistas e ghost-writers.
Tancredo Neves, por exemplo, que pronunciou alguns dos mais memoráveis
discursos da história brasileira, delegava a tarefa ao jornalista Mauro
Santayana. Bill Clinton e Barack Obama também têm ghost-writers.
No entanto, de Lula, cobra-se o
que jamais foi cobrado de qualquer outro político brasileiro. Em Veja.com,
Augusto Nunes classifica o ex-presidente como uma espécie de analfabeto,
incapaz de pronunciar um "tanquiú" (leia mais aqui). Escriba de luxo
de seus patrões, Nunes já se prestou a todo tipo de tarefa – entre elas, a de
exaltar o "caçador de marajás" Fernando Collor, como está bem
detalhado no livro "Notícias do Planalto", de Mario Sergio Conti,
ex-diretor de Veja.
Estávamos, no 247, decididos a
não comentar o texto de Nunes, uma das peças mais insignificantes já publicadas
por algum de veículo de comunicação no Brasil. Mas não se trata, infelizmente,
de um movimento isolado. Neste domingo, em Época, Guilherme Fiúza, que se
notabilizou por biografias de personagens como Bussunda e Reynaldo Giannechini,
além do livro "Meu nome não é Johnny", consegue descer ainda mais
baixo do que seu concorrente em Veja.
Segundo ele, a coluna concedida a
Lula é a prova de que "os americanos estão levando a sério o projeto de
decadência do império americano". Diz ele ainda que Lula se tornou para o
New York Times "um suvenir da pobreza, desses que a esquerda americana ama".
Fiúza sugere que Lula escreva "Rose's story" e diz que ele poderá
"narrar as peripécias de Waldomiro, Valdebran, Gedimar, Vedoin, Bargas,
Valério, Delúbio, Silvinho, Erenice, Rosemary e grande elenco". Por
último, pede a Dilma que proíba a Polícia Federal de ler a sua coluna.
O que dizer de personagens como
Augusto Nunes e Guilherme Fiúza? Nada, a não ser "sorry, periferia".
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